terça-feira, 26 de julho de 2011

Cigarette Blues

Me vê um sereníssima, filtro azul, maço.
Tenho por hábito fumar minha tristeza. Acho que a calmaria está na vingança indireta. Como se me matar um pouquinho fosse valer de um ato corajoso de maltratar a quem minha vida valoriza o respirar. Geralmente são esses a fonte dos meus pesares, os demais, pouco me importa. Ou talvez seja só a sensação que fornece a nicotina. As arestas estão aí pra machucar. Pois bem, que machuque.
Sempre fui fã de Lupicínio no escuro da porta Fechada. Afinal, a dramaturgia nunca teve a ver com maturidade nem com racionalidade. Os olhos bonitos, que por hora te tiram o sono, te provocam estafa pela manhã. Canso, fumo...
...o que em demasia compromete o coração.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sabe, eu nunca fui muito dessas sentimentalidades (...)

Tava ali, abarrotando o balcão e atrapalhando o meu acesso à próxima cerveja. Eu já tinha bebido demais pra poder ter ciência do que realmente aconteceu, ou melhor, de como aconteceu. Só sei, e sei bem, que o que normalmente resultava em um apertar de lábios e franzir de testa, acabou em beijos a granel. Talvez por ele ser bem mais digno de complacência do que as “panteras” beiradas no balcão à espera de alguém que lhes pague “um drink”. Ou talvez tenha sido pelo porte grande, o rosto bonito e o cheiro bom. 

Fiquei a noite toda escorada no balcão.

Sabe, eu nunca fui muito dessas sentimentalidades, mas de uma certa forma fui permitindo que ele me visse durante a semana, que achacasse meu pijama e esquentasse meus pés nos dele. E eu que sempre fui de correr sozinha por aí, passei a ter medo do momento em que ele diria que está tarde e que precisa ir embora. As vezes ele vai, mas volta rápido. Penso, sorte a minha, enquanto concluo que fica tudo tão mais chato sem ele.

sábado, 14 de maio de 2011

Me pediram para definir amor



Há tempos, mãos, boca e feições tentam explicar a que ele veio. Desde muito antes do long play, das estrofes rimadas, do buquê de rosas, e dos cartões coloridos, foi dado nome a um sentimento estranho, que causava alterações físicas como suor, taquicardia e até mesmo dor. Como acontece com tudo que não se pode explicar, criou-se um deus e nomeou-se, nesse caso chamou-se amor. E aí ele foi tomado como algo realmente absoluto e grandioso, capaz de trazer montanhas a Maomé, e tudo passou a valer a pena em nome do dito cujo, afinal, amor é um sentimento nobre, não é? Bom, dizem que sim.


Faz-se loucuras por amor, a depressão é valida em nome do amor, em alguns casos, de que mal morrer, se for em nome do amor? Ao fim de tudo, o amor virou nada mais que uma grande desculpa pra humanidade agir sem razão. Não é ciúme dos filhos, é amor de mãe. Não é insegurança entre casais, é demonstração de amor. Não é fanatismo religioso, é amor à fé. Não é guerra, é amor à pátria. Tudo isso acontece, porque cada indivíduo na amplitude dos seus anseios, medos, necessidades e acima de tudo dúvidas, não compreendeu ainda o que é esse tal amor, mas ao mesmo tempo não tem medo de usá-lo. É como pilotar um avião sem nem mesmo ter brincado com um simulador em um vídeo game qualquer. E a culpa de tudo isso, é da tal mania que o ser - humano tem de dar nome aos bois, de querer explicar as coisas, quando no fim não conseguem ir além das asas de Ícaro.
... Mas tantas foram as vezes em que tive a cera derretida ao sol!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Romantizei

Na maioria das vezes, só me cabe romantizar o passado. Mas tem aquele lance, do velho trocadilho da mente.

Por um longo momento – como pude, eu – esqueci dos gritos, das ofensas, dos aborrecimentos diários e daquele apertão no braço. Esqueci também da incompatibilidade de ideias, do teu temperamento irritantemente submisso, das tuas atitudes infantis e do teu machismo sexual. Tua ignorância política e tua mania de nunca saber o que fazer com as coisas. O teu ateísmo que reza quando tem medo. O teu gosto por tufar-se de orgulho.
Esqueci das três ou quatro humilhações. Que quando o barraco caiu, foi tu quem puxou a viga. Esqueci que mentes para se fazer de fraco. Que te fazes de fraco para se fazer de certo. Esqueci o quanto conseguia ser chato enquanto tentava chamar a atenção. E de quantas vezes tentei me ver livre de ti.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sobre quereres

Ela pensava nas palavras que lhe foram ditas, enquanto desenredava distraidamente os longos cabelos negros, em um banho de água quente. Nada que pudesse ser muito importante, mas ela gostava de ideia de poder explorar as possibilidades. Às vezes as pessoas dizem não, pela pura vontade do sim. Outras vezes é só medo. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

Código Verônica

Verônica lhe deu as costas, fechou os olhos e lhe pediu que fosse embora sem que olhasse pra trás. O espelho se quebrou de auto-piedade. Sentou naquela poltrona reformada de veludo bordô, acendeu o cigarro sombreado pelas pálpebras inchadas e fumou sua tristeza. Nunca imaginou que um dia seu castelo incendiaria, pensou que nunca passasse das cortinas. A próxima reação foi o fogo, queimar o passado em uma garrafa de gim e ao último fósforo que beirava o fogão.
Verônica sentia um trançar de ódio, dor e medo. Mas a conformidade de certa forma lhe acalantava o peito. Quase podia ouvir o ufa, de um coração incendiado. O amor é sadomaso, e como qualquer outro, ela também costumava sentir vida na dor. E dor era tudo aquilo que Marcos melhor sabia lhe proporcionar. Talvez por isso tanto amor.
Após exausta cair por sono, curvada sobre um tapete tão abatido quanto ela, ao acordar não sentiu o corpo reclamar. A vontade de viver e mostrar se estar vivendo lhe provocava muito mais. Tomou seu banho de recomeço e resolveu parar de ter pena de si. Vestiu-se, pintou os olhos, mas não perfumou-se. Chega de artificialidades, sonhos de âmbar. A vida não passa de carne e pêlo.  

domingo, 13 de março de 2011

Trova miúda a respeito das maiores coisas da vida

O gosto da cerveja com o cheiro do incenso tem o frisson da liberdade. Só me falta o tragar de um Free azul. O amor de vocês eu ainda tenho. A minha casa fica no mesmo lugar. A minha cama dura também mora lá. O sofá ainda é vermelho. E o meu porta jóia ainda é cinzeiro.